Endividamento do agronegócio em Mato Grosso atinge R$ 21,79 bilhões
Aumento de custos, queda nos preços de commodities e falta de seguros elevam inadimplência no estado.

O agronegócio em Mato Grosso enfrenta um cenário de asfixia financeira, com a carteira de crédito rural problemático atingindo R$ 21,79 bilhões em abril de 2026. O volume, que representa 18,22% de todo o crédito rural concedido em MT, saltou 1.144% em comparação a 2020, segundo dados do Banco Central compilados pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).
A crise foi impulsionada por quebras de safra e instabilidades climáticas. Cleiton Gauer, superintendente do Imea, explica que o impacto na produtividade da soja na safra 2023/24 foi severo devido a um veranico concentrado que atingiu cultivares de ciclo curto. O gestor ressalta que a redução da colheita local não provocou a alta de preços esperada pelos produtores, evidenciando um risco de mercado.
Os custos de produção dispararam, influenciados por gargalos logísticos e pelo conflito entre Rússia e Ucrânia. Na soja, o custo médio total subiu 86,71%, chegando a R$ 7.171,07 por hectare, enquanto no milho a alta foi de 100,86%, atingindo R$ 6.019,05 por hectare. Simultaneamente, as cotações caíram: a saca da soja, que chegou a R$ 147,47 na safra 2021/22, recuou para a faixa entre R$ 107 e R$ 114 nos anos seguintes.
A falta de proteção securitária agravou as perdas. O valor garantido por apólices de seguro rural para soja e milho em Mato Grosso caiu de R$ 3,90 bilhões em 2021 para R$ 290 milhões em 2025, reduzindo o número de apólices ativas de 3.195 para 331. Sem indenizações, os prejuízos operacionais impactaram diretamente o fluxo de caixa das propriedades.
A situação levou Mato Grosso a liderar os pedidos de Recuperação Judicial no agro desde 2023, com 332 solicitações registradas apenas em 2025, segundo a Serasa Experian. O endividamento é agravado pela alta da taxa Selic, que chegou a 14,50% ao ano, elevando o custo de rolagem de dívidas e encarecendo linhas do Plano Safra, como Moderfrota e Inovagro.
Projeções do CPA-MT indicam que os ciclos atuais operam no vermelho. Para a safra 2026/27, estima-se um prejuízo operacional de R$ 1.419,96 por hectare na soja e de R$ 2.055,17 no milho. Cleiton Gauer afirma que a recuperação depende do ciclo das commodities e dos preços, mas prevê que 2027 ainda será um ano ruim.
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